Manifesto dos 29

02/12/2016

 

Sou um especialista em fracassos. Fracassei tão insistente e consistentemente que me sinto quase um profissional. Neste ofício de fracassar - contemplando minha vasta coleção de erros e falhas, mal entendidos e relacionamentos desastrosos - no dia do meu aniversário, avaliando como usei o tempo que a vida me deu para viver até então, cheguei à conclusão de que, só agora, consegui reunir as condições necessárias para sentir real empatia pelo sofrimento dos outros. 

 

As cinco internações psiquiátricas às quais me submeti, as longas crises de ideações suicidas que suportei, as cicatrizes dos cortes que risquei no meu corpo e principalmente as tentativas fracassadas de tirar minha própria vida, tudo isso - cada segundo habitando a tormenta que nossa mente pode ser - me fez compreender na pele a dinâmica do sofrimento - a que todos estamos infelizmente sujeitados a experimentar em alguns momentos ao longo da vida.

 

Sofrer tanto, em intensidade e duração, me inundou daquilo que chamamos de compaixão - a capacidade de sofrer junto com alguém, de entender o que o outro está passando, de acolher o que o outro está sentindo. Ao respeitar minhas próprias fragilidades e me permitir vulnerável, me fortaleci e fui me tornando cada vez mais empático. Navegar pelos sentimentos tempestuosos da angústia, do desespero, da desesperança, da tristeza, da raiva, da confusão - e ter sobrevivido a cada intempérie mental que cruzou o meu caminho - fez crescer em mim muito respeito pela complexidade que somos. 

 

Ao longo dessas vinte e nove voltas ao redor do Sol, sinto profunda humildade frente ao caos que a vida pode ser, simpatizo com quem está passando por momentos difíceis e me disponho a ser uma companhia serena àqueles que quiserem um abraço para além de braços. Se há algo que sei do valor é da companhia compassiva de quem respeita o sofrimento alheio. Se não fosse por aqueles mais próximos a mim, não teria sobrevivido a mim mesmo. Fui tão acolhido, e por tantas vezes, que me sinto na responsabilidade moral de oferecer acolhimento. 

 

Desconheço muitas formas de sofrimento: não passei fome, não vivi a guerra, não fui vítima de injustiça, não sofri violência física... mas conheço bem as ramificações do sofrimento psíquico - quando tudo está favorável por fora mas algo aterrorizante nos corrói por dentro. Não vivenciei até hoje nada que fosse pior do que o aperto no peito de uma mente cansada de existir, por isso tenho muito respeito por todos aqueles que sentem que chegaram no fundo do poço. Esse respeito vai para além da mera identificação, ele é um respeito que se sustenta no desejo sincero de que o sofrimento passe e que o bem estar floresça, um respeito que traz consigo a vontade de ter forças para poder dar força. 

 

Hoje, aprendendo a navegar nas minhas próprias emoções, sendo um psiconauta que respeita o oceano mental que navega, posso dizer que já conheço algumas rotas desse labirinto que somos, que já aprendi a percorrer alguns dos seus caminhos de paredes ásperas e becos escuros, que já não tenho mais medo de me perder - principalmente por não estar mais perdido na ideia de que tenho que me encontrar - e é exatamente por essas razões que desejo usar esse meu longo histórico de descaminhos e repertório de sofrimento para falar abertamente sobre saúde mental, sobre bem estar, sobre amadurecimento e superação, sobre vida e principalmente sobre morte.

 

Acredito que todas essas vivências difíceis, e todo o tempo que dediquei em pensar sobre elas, constituem um patrimônio filosófico precioso que quero compartilhar com todos que puder. Descobri, por vivência própria, que é possível suportar o insuportável quando temos companhia para isso. Sendo assim, proponho: vamos conversar sobre o complexo?

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